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Ser Inteligente é Estúpido, de Tricia Brouk: liderança consciente para 2026

O olhar norte-americano que redefine a liderança contemporânea

Durante anos, a cultura de liderança recompensou, acima de tudo, a inteligência. Pensamento estratégico, capacidade de decisão, autoconfiança e domínio técnico foram tratados como marcas distintivas da liderança eficaz. Esperava-se que a pessoa mais inteligente da sala se movesse mais rápido, enxergasse mais longe e liderasse com certeza, especialmente quando os riscos eram elevados. Contudo, à medida que as organizações avançam para meados da década de 2020, esse modelo já não é suficiente. Mais do que isso, tornou-se crescentemente arriscado.

As falhas de liderança mais prejudiciais da atualidade raramente decorrem de incompetência ou falta de conhecimento técnico. Elas surgem de pontos cegos: pressupostos não examinados, comportamentos reforçados e hábitos mentais invisíveis que até mesmo líderes altamente capacitados desenvolvem ao longo do tempo.

Em Being Smart Is Stupid: Why Embracing the Wisdom of Your Buddha Nature Is the Secret to Great Leadership, Tricia Brouk enfrenta esse paradoxo de forma direta. A própria inteligência que permite aos líderes alcançar o sucesso pode, silenciosamente, limitá-los, caso não estejam dispostos a examinar aquilo que não veem, não questionam ou rejeitam de forma instintiva.

Em um contexto no qual a liderança está sendo redefinida pela inteligência artificial, por forças de trabalho distribuídas e por crescentes demandas de transparência e inclusão, o argumento de Brouk revela-se particularmente urgente. O livro não se apresenta como uma crítica à inteligência, mas como uma recalibração de como ela é utilizada. Como a autora deixa claro, a liderança em 2026 já não é definida pela quantidade de conhecimento que um líder possui, mas pelo grau de consciência que desenvolve sobre si mesmo, sobre os outros e sobre os sistemas que suas decisões reforçam.

A tensão central explorada por Brouk é aparentemente simples: líderes inteligentes costumam ser os menos preparados para reconhecer os próprios pontos cegos. O sucesso passado reforça padrões familiares. A confiança endurece em certeza. A eficiência ocupa o espaço da reflexão.

Em ambientes de ritmo acelerado, líderes são recompensados pela capacidade de decidir rapidamente. No entanto, essa mesma decisão pode silenciar dissensos, desencorajar a investigação crítica e marginalizar perspectivas que não se encaixam em estruturas já estabelecidas. Com o tempo, as organizações passam a ser moldadas não apenas pelo que os líderes valorizam, mas também pelo que deixam de perceber. Being Smart Is Stupid reformula os pontos cegos não como falhas pessoais, mas como um subproduto inevitável da própria liderança. O poder estreita a percepção. A autoridade filtra o retorno. A experiência, embora valiosa, pode solidificar-se silenciosamente em rigidez.

O que distingue o trabalho de Brouk é sua recusa em tratar a autoconsciência como um exercício vago ou meramente performático. Em vez disso, ela a posiciona como uma disciplina que exige humildade, curiosidade e disposição para o desconforto. Uma das afirmações mais contraculturais do livro é que não saber não constitui fraqueza, mas sim uma forma de maturidade na liderança. Líderes capazes de reconhecer incertezas, formular melhores perguntas e permanecer abertos ao questionamento estão mais bem preparados para navegar a complexidade do que aqueles que dependem exclusivamente da expertise.

Isso não significa abdicar da responsabilidade. Significa deslocar-se de uma liderança orientada pelo ego para uma liderança orientada pela consciência, na qual a clareza não decorre do controle, mas da compreensão.

Brouk também se detém cuidadosamente no custo humano de uma liderança não examinada. Pontos cegos raramente se manifestam de forma dramática. Eles surgem de modo silencioso em reuniões nas quais certas vozes são sistematicamente ignoradas, em feedbacks que nunca chegam ao topo, em culturas onde a conformidade substitui o engajamento. As equipes podem vivenciar essas dinâmicas como desvalorização, invisibilidade ou exaustão emocional, mesmo quando os líderes acreditam estar agindo de maneira racional ou eficiente. Com o tempo, a confiança se desgasta, a segurança psicológica se enfraquece e talentos se desengajam ou se afastam.

Ao reformular a responsabilização da liderança para incluir o impacto, e não apenas a intenção, Being Smart Is Stupid desafia os líderes a considerarem não apenas o que acreditam estar fazendo, mas aquilo que seus comportamentos produzem de forma consistente.

Leitores familiarizados com a obra anterior de Brouk, The Influential Voice, reconhecerão uma linha filosófica clara. Esse livro concentrou-se em presença, comunicação e influência relacional, ajudando líderes a compreender como se apresentam e como são percebidos.

Being Smart Is Stupid aprofunda essa base ao voltar o olhar para dentro. Se The Influential Voice perguntava como líderes comunicam poder e autenticidade, esta obra propõe uma questão mais desafiadora: o que os líderes não querem ou não conseguem enxergar sobre si mesmos depois que a influência já foi estabelecida?

Juntos, os dois livros traçam uma evolução que vai da expressão ao exame, da influência à responsabilidade. Essa trajetória reflete uma mudança mais ampla já em curso na cultura de liderança. À medida que as organizações adotam estruturas mais horizontais, equipes interfuncionais e processos decisórios apoiados por inteligência artificial, a autoridade, por si só, deixa de garantir eficácia.

No cenário de liderança de 2026, líderes são avaliados não apenas pelos resultados, mas pela forma como as decisões são tomadas, por quais vozes são incluídas e se os sistemas promovem resiliência em vez de dependência. A consciência torna-se um fator multiplicador. A rigidez transforma-se em passivo.

O trabalho de Brouk sugere que o futuro pertence aos líderes que conseguem permanecer intelectualmente fortes sem se tornarem intelectualmente fechados. São líderes que tratam a curiosidade como um ativo estratégico, e não como uma vulnerabilidade pessoal.

Being Smart Is Stupid não é uma rejeição da inteligência. É uma correção de seu uso irrestrito. Em um momento em que a complexidade supera a certeza, Brouk oferece uma abordagem disciplinada e humana da liderança, fundamentada na consciência, na responsabilização e na coragem de confrontar os próprios pontos cegos.

À medida que as organizações projetam o futuro para 2026 e além, os líderes mais capazes de conduzir os outros adiante talvez sejam justamente aqueles mais dispostos a perceber o que estiveram deixando de enxergar ao longo do caminho.

Claudia Cataldi

Jornalista Formada, MTB-26853, Publicitária, Radialista, Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais, com vasta experiência nas três esferas de Governo. Foi bolsista pela ONU em Israel. Morou em Cuba, México e EUA. Trabalhou na: TV Globo, Record, Band e CNT. Imortal por 5 Academias de Letras, RJ, SP, MG, NY e Portugal. Atualmente apresenta programa na TV ALERJ, a TV da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e ministra classes na ELERJ-Escola do Legislativo do Estado do Rio de Janeiro.

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