EntretenimentoMúsica

DJ Dolores “Recife • 19” começou em fins de 2018

DJ Dolores "Recife • 19"

DJ Dolores “Recife • 19”

 

O projeto “Recife • 19” começou em fins de 2018 e reúne uma grande quantidade de intérpretes, musicistas, parceiros novos e antigos tomando como base a cidade que batiza o álbum.

Assumi várias posições no disco, da composição original a mixagem e seria um trabalho solitário não fosse a companhia e suporte de pessoas queridas que reverteram cada dificuldade em estímulo e esperança.

 

DJ Dolores "Recife • 19" começou em fins de 2018
DJ Dolores por Fred Jordao

 

 

O conjunto de canções que compõem o álbum tem em sua origem a história, a busca do entendimento do passado como guia do futuro.

Seja na reflexão sobre a estrutura social brasileira em A Casta ou na micro-história narrada em Adilia’s Place, no afro futurismo de Exú Ciborgue e nas lembranças de Nanquim.

Talvez o viés de inspiração em fatos e pessoas do passado representem uma necessidade de entender o atual momento histórico do país.

Talvez tenha sido a convivência com Silvana Jeha, historiadora, autora do recém lançado Uma História da Tatuagem no Brasil, que trouxe munição intelectual com seus personagens saídos do submundo historiográfico brasileiro, personagens que sobreviveram sob pressão, com pouco ou quase nada e no entanto não se furtaram de celebrar a vida através da música, do humor, da dança e de um sentimento difícil de descrever chamado liberdade.

 

DJ Dolores "Recife • 19" começou em fins de 2018
DJ Dolores por Fred Jordao

 

Faixa a faixa

A Casta

Foi composta em uma sentada e arranjada ao vivo no estúdio em três takes com participação da minha antiga banda de 2003, a Orchestra Santa Massa. Talvez a urgência da letra se reflita na musicalidade ágil, nervosa e, claro, dançante.

Rua

A faixa tem uma introdução circense mas a estrutura principal é um maracatu rural. Acho que uma das coisas mais lindas que já ouvi são os maracatus nos terreiros e sempre me encanto com seu ritmo selvagem, com o vigor dos dançarinos e acho que cabe como uma boa moldura musical para os sentimentos que tem movido tantos jovens mundo afora de manifestarem seus descontentamentos em espaços públicos. As vozes são de Erica Natuza e Jr Black. Erica foi uma das finalistas do The Voice Brasil e Jr Black é o DJ Urso no celebrado Bacurau.

Mudanças

Compus a letra a partir dos fragmentos escritos por Clarice Fantini, então uma garotinha. Completei-a pensando nos dilemas do personagem adolescente de Big Jato, filme de Claudio Assis, e tive o imenso prazer de vê-la musicada e interpretada por Jards Macalé, este sim um eterno adolescente. O arranjo final coube a mim e Yuri Queiroga, parceiro constante em todo o projeto.

Adilia’s Place

Adilia’s Place era o nome de bordel na beira do porto onde começamos a fazer as primeiras festas do que seria chamado mais tarde de Manguebeat.  Coincidentemente, foi onde comecei a tocar como DJ e isso aconteceu há 30 longos anos. Quem canta, mais uma vez, é Erica Natuza e meu velho amigo Jr Black.

Teniente Ray, Amargura

As músicas que ouvimos nas ruas são uma constante inspiração para mim. Como não tenho propriedade para fazê-las de modo tão bacana como seus autores originais, faço do meu jeito e saiu essa espécie híbrida de arrocha com destaque para o saxofone virtuose de Henrique Albino. Os samples foram gravados durante uma visita a Havana, em 2000.

12 segundos

Ah, o Pará, sempre presente em meu trabalho. Do mesmo modo que a anterior, tento não copiar, mas me apropriar e fazer as coisas do meu jeito. Erica e Black mais uma vez dão aquele molho nos vocais. Sobre a letra: Yuri Queiroga uma vez me falou que tinha lido em algum lugar que as coisas dão errado porque as pessoas contam apenas até dez. O certo seria contar até doze pois esses dois segundos a mais é o tempo que o cérebro precisaria para tomar melhores decisões. Gostei da ideia utópica de que com mais dois segundos teríamos um mundo melhor.

DJ Dolores "Recife • 19" começou em fins de 2018
DJ Dolores por Fred Jordao

 

Nanquim

Silvana Jeha estava pesquisando sobre marinheiros e prostitutas quando se deparou com uma brochura do século XVIII chamada O Marujo Saudoso, basicamente a carta de um marinheiro pernambucano à sua namorada. Quando ela me mostrou, sabia que que aquilo daria uma música e assim foi feito com Ylana Queiroga cantando como quem lesse a carta. Essa foi uma das primeiras m;usicas do disco, produzida quase que inteiramente no meu home studio.

 

Exú Ciborgue

O beat foi criado enquanto revisava kuduro e funk mas faltava um sentido à letra e, inicialmente, era apenas um refrão, cantado por Catarina de Jah, que questionava se as coisas realmente se arranjam pelas vias da justiça e da razão. Quando Nêgo Freeza (O Quadro) entrou na brincadeira reivindicando a força de Exú, a canção caminhou para um lado inesperado porque sempre é assim: as músicas têm vida própria.

The Wild One

Esse tema foi criado como música diegética para uma série de TV chamada Lama dos Dias, co-criação minha com o cineasta Hilton Lacerda. Momento leve e despretensioso em parceira com Black mais uma vez.

O Gringo

Uma parte muito forte da minha educação musical veio das guitarras congolesas e seu desdobramento no Caribe, Antilhas e na costa brasileira. Quem canta é Ylana Queiroga e a letra ironiza o colonizador que (pensa que) tudo sabe.

Quase Nos Esquecemos

Eu estava planejando um álbum com Yuri Queiroga quando soubemos que Edgar estava na cidade para o carnaval. A gente já era bem fã do seu trabalho e não hesitamos em levá-lo ao estúdio para uma sessão que resultou nesse tema.

DJ Dolores "Recife • 19" começou em fins de 2018
DJ Dolores por Fred Jordao

Yuri Mine

Fotógrafo, diretor de fotografia e VideoMaker (Studio Y.M / No Name Filmes). Nipo-Brasileiro e adorador de tecnologia, motos e carros. Sempre disponível a novos desafios e projetos. @YURIMINE // YURIMINE.com.br

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Botão Voltar ao topo